Mirelle Pinheiro

Investigadores também identificaram indícios de possível assinatura retroativa de contrato

Mirelle Pinheiro
10/09/2026 14:54
BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto
Um doador da campanha eleitoral do deputado federal Mario Frias (PL-SP) abriu uma empresa poucos dias antes de ser contratado por um projeto que entrou na mira da Polícia Federal (PF). Além da proximidade entre a criação do negócio e a contratação, os investigadores identificaram indícios de uma possível assinatura retroativa do contrato.
As informações constam na investigação que embasou a Operação Make Up, deflagrada nesta quinta-feira (10/9), e foram reproduzidas na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou as medidas contra Frias e outros investigados.
Segundo o documento, as suspeitas apareceram durante a análise das contratações realizadas no âmbito do projeto “Lutando Pela Vida”. Entre os beneficiários identificados pela PF está Rudyge Alex Scatolini Boldrini, que recebeu R$ 13,7 mil.
A PF afirma que Rudyge é doador da campanha de Mario Frias e teria constituído um Microempreendedor Individual (MEI) poucos dias antes da contratação.
O intervalo reduzido chamou a atenção dos investigadores. A apuração aponta ainda indícios de “possível assinatura retroativa do respectivo contrato”.
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A análise do mesmo projeto identificou outras contratações consideradas suspeitas pelos investigadores. Entre elas está a da Pulsa Uniformes, que recebeu R$ 457,8 mil.
A PF também analisou pagamentos feitos a instrutores e profissionais ligados a uma academia de jiu-jítsu localizada em Pirassununga, no interior de São Paulo.
Nesse grupo, os investigadores identificaram pessoas físicas e jurídicas cujas atividades econômicas registradas, os chamados CNAEs, seriam incompatíveis com os serviços faturados.
A decisão de Dino registra suspeitas de peculato, fraude em licitação ou contrato, contratação direta ilegal, falsificação de documento particular, falsidade ideológica, uso de documento falso, emprego irregular de verbas ou rendas públicas, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.
A menção aos crimes diz respeito ao conjunto da investigação e não significa que cada um dos envolvidos seja suspeito individualmente de todos eles.
Organização criminosa
O caso de Rudyge aparece dentro de uma investigação mais ampla sobre a destinação e execução de recursos públicos ligados a entidades que mantêm relação com pessoas próximas a Frias.
Na representação apresentada ao STF e reproduzida na decisão de Dino, a PF afirma que as diligências preliminares indicam a possível existência de uma organização criminosa “integrada pelo Deputado Federal Mario Frias”.
Segundo a hipótese investigativa, o parlamentar teria direcionado verbas federais, por meio de termos de fomento custeados com emendas parlamentares, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura (ANC).
As duas entidades são presididas por Karina Ferreira da Gama, apontada no documento como pessoa com vínculos com o parlamentar.
Para a PF, os recursos teriam sido utilizados para custear contratos supostamente fraudulentos e cuja execução não teria atendido às finalidades estabelecidas originalmente.
Os investigadores apuram ainda se empresas pertencentes a pessoas ligadas aos integrantes do grupo foram favorecidas.
Dark Horse
A investigação ganhou repercussão por alcançar o núcleo relacionado a Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na decisão, Karina Gama é apresentada como empresária ligada à produção do filme e como pessoa que mantém proximidade política com Mario Frias. Ela teria participado da campanha eleitoral do parlamentar em 2022.
O documento registra ainda que uma empresa de propriedade de Karina prestou serviços à campanha de Frias. Posteriormente, o Instituto Conhecer Brasil, presidido por ela, recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares de autoria do deputado.
A PF também identificou transferências feitas pelo próprio Frias à Go Up Entertainment, empresa de Karina ligada ao filme. Foram R$ 645,4 mil em menos de 60 dias.
Segundo os investigadores, os rendimentos mensais de Frias eram de aproximadamente R$ 44 mil, circunstância que colocou sob investigação o “lastro financeiro” utilizado para realizar as transferências.
Operação nesta quinta
A PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram nesta quinta a Operação Make Up para aprofundar a investigação sobre a suposta utilização irregular de recursos públicos.
Foram autorizados 49 mandados de busca e apreensão, cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Mario Frias está entre os alvos.

