Saúde / Chico Salgado

Chico Salgado

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Fazer a reserva de corpo saudável adotando o movimento bem antes da velhice é o melhor caminho
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Chegar aos 70 com um corpo funcional depende do quanto nos cuidamos antes — Foto: Magnific
Existe um período da vida que o corpo começa a mandar sinais diferentes. Você trabalha, enfrenta uma rotina cheia, e muitas vezes as coisas já não funcionam como antes. As noites mal dormidas começam a pesar no dia seguinte, uma semana sem treino faz muita diferença, a recuperação de tudo começa a ficar mais lenta, e o que aos 20 e poucos anos era natural passa a exigir um pouco mais de cuidado. Por isso, o período entre os 36 e 46 anos são os mais importantes quando pensamos em longevidade e saúde.
A ideia não é criar um regra sobre a idade, até porque não existe uma virada biológica aos 36 anos, tampouco um prazo de validade, mas devemos prestar atenção a essa janela da vida em que ainda temos bastante capacidade de construir força e bons hábitos e, ao mesmo tempo, não podemos depender das reservas da juventude.
Por muito tempo, tratar de longevidade significou falar em viver mais, mas nos dias atuais essa conversa precisa necessariamente incluir a pergunta: em quais condições? Afinal, nem eu, nem você, nem ninguém, deseja alcançar os 80 anos apenas por alcançar. Até lá, queremos estar caminhando, subindo escadas, fazendo compras, brincando com os netos, tendo autonomia para fazer o que traz sentido à vida.
Essa visão faz com que o exercício físico deixe de ser uma ferramenta apenas para o emagrecimento e passa a ocupar o espaço de mantenedor de toda uma vida. Capacidade cardiorrespiratória, mobilidade, massa muscular e força são fundamentais para a longevidade.
O problema é que, entre os 30 e 40 anos, a vida geralmente fica muito mais cheia. As responsabilidades batem à porta, os filhos, os compromissos, a carreira. Nesse cenário, o exercício acaba se tornando a primeira coisa a ser retirada da lista de tarefas ou prioridades. Mas acreditar que a ausência de uma limitação hoje significa que não precisamos construir capacidade para amanhã.
Perder a capacidade física nunca acontece de repente. É um processo silencioso, aos poucos. A pessoa passa a se movimentar menos, passa horas sentada, reduz estímulos cardiovasculares e evita movimentos que antes faziam parte da rotina. Em alguns anos, o que parecia pequeno começa a pesar nas tarefas do dia a dia.
Apesar do meu lema parecer repetitivo, ele só reforça uma certeza: que a partir de certa idade, o treinamento deixa de ser uma escolha voltada para estética e para o presente, ele é um investimento no futuro.
Depois de tantos anos trabalhando com atividade física, uma coisa ficou muito clara para mim: o melhor programa de treinamento não é aquele que parece perfeito no papel, mas aquele que consegue existir na vida real. Quando falamos de longevidade, consistência vale muito. É por isso que sempre defendo que a falta de uma hora disponível não pode significar ausência completa de movimento. Dezoito minutos de treino continuam sendo 18 minutos de estímulo. Uma caminhada continua sendo movimento.
Nossa capacidade física funciona, em certa medida, como uma reserva construída ao longo da vida. Quando pensamos em aposentadoria financeira, ninguém imagina começar a guardar dinheiro no dia em que decide parar de trabalhar. Com o corpo, deveríamos ter uma mentalidade parecida.
Essa talvez seja uma das principais razões pelas quais os anos entre os 36 e os 46 merecem tanta atenção. É uma fase em que podemos sair da relação quase automática que tínhamos com o corpo quando mais jovens.
Isso não significa que quem passou dos 46 perdeu a oportunidade. Já vi pessoas começarem a treinar aos 50, 60 anos ou mais e conquistarem mudanças enormes. O organismo continua respondendo aos estímulos, e começar mais tarde ainda é infinitamente melhor do que não começar. A diferença é que, quando temos a oportunidade de construir antes, podemos chegar às próximas décadas carregando uma reserva muito maior.
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