Aos 14 anos, Jéssica Soares Rosalina foi diagnosticada com lúpus e desenvolveu comprometimento da função renal. Com a piora do quadro, começou a depender da hemodiálise em 2018. As sessões se tornaram parte da rotina de estudos, do casamento e até da construção da casa. Mas em 2022 tudo mudou, quando ela passou por um transplante renal por meio da doação da própria irmã.Antes do procedimento, ela já havia decidido que gostaria de receber um transplante e estava na lista de doação, mas conta que nunca era chamada. Foi a partir daí que buscou informações e conheceu a possibilidade de receber a doação de alguém vivo.“Quando entrei na faculdade, percebi que não teria uma vida tranquila se não fizesse o transplante. Decidi buscar informações, o que me trouxe segurança, pois no começo eu tinha receio”, conta.A mãe dela foi a primeira a se candidatar para fazer a doação, em 2021, mas, após realizar os exames solicitados, descobriu três pedras nos rins, o que impossibilitou o procedimento. Leia também SaúdeRim do tipo sanguíneo A é convertido em O em busca de doação universal SaúdeHomem vive 271 dias com rim de porco antes de receber transplante humano BrasilPaciente que recebeu rim errado será prioridade na fila de transplante SaúdeBrasil cria 1º porco clonado para transplante de órgãos humanos Para ser doador não basta querer, o candidato passa por uma rigorosa avaliação de saúde a fim de garantir que, futuramente, não seja ele a ocupar a cadeira da hemodiálise.“A avaliação é multidisciplinar e muito rigorosa. Não olhamos apenas para o rim: avaliamos a saúde global da pessoa e o risco que a retirada do órgão representa para ela no curto e no longo prazo”, afirma a coordenadora da Nefrologia do Hospital Anchieta, Helen Siqueira.Ato de amorDiante da impossibilidade da mãe, a irmã de Jéssica, Danielle, se candidatou. Ela realizou todas as avaliações e teve a compatibilidade confirmada. O transplante ocorreu em 18 de março de 2022.“Nós já éramos conectadas, mas agora é uma conexão que excede o entendimento humano. Eu não tenho palavras para agradecer, ela me devolveu à vida”, afirma Jéssica sobre o vínculo com a irmã pós-transplante.2 imagensFechar modal.1 de 2O transplantes foi realizado em 20222 de 2Jéssica abraça a irmã no dia de sua alta hospitalarDoação Inter VivosA doação inter vivos é uma possibilidade que permite realizar o transplante sem depender exclusivamente da disponibilidade de um órgão de doador falecido. Quando existe um doador vivo adequado, o planejamento do transplante pode ser feito de maneira programada, depois de uma avaliação cuidadosa.“É fundamental que se entenda que a doação entre vivos não é obrigação de ninguém. É um ato seguro, voluntário e de muito amor”, afirma a nefrologista Helen Siqueira.Pós-transplante e recuperaçãoNos primeiros meses após o transplante, Jéssica apresentou um episódio de rejeição e precisou retornar ao Hospital Anchieta. Com o acompanhamento da equipe responsável, a complicação foi controlada e, desde então, ela não relata novas intercorrências.Helen explica que a rejeição não significa, necessariamente, perda do transplante. É uma complicação conhecida e, principalmente quando identificada precocemente, pode ser tratada e revertida.“Quando há suspeita de rejeição, fazemos investigação direcionada e, quando indicado, biópsia do rim transplantado, que permite caracterizar o tipo de rejeição e orientar o tratamento”, explica Helen.O protocolo depende do tipo e da gravidade da rejeição. Em rejeição celular aguda, por exemplo, corticosteróide em altas doses é uma das principais estratégias; casos mais graves ou resistentes podem exigir terapias adicionais. Já a rejeição mediada por anticorpos tem abordagem diferente e pode envolver estratégias como plasmaférese, imunoglobulina e, em algumas situações, outras terapias.Quatro anos depois do transplante, Jéssica se graduou em Nutrição — curso que iniciou enquanto passava pela hemodiálise — e atende no próprio consultório. Ela vive em um casamento feliz e voltou a fazer planos, o que, durante o tratamento, parecia distante.“Foi um desafio, mas eu sempre fui um uma pessoa que nunca aceitou ficar em lugar de coitada. Então, apesar de estar passar por muitas coisas, eu sempre tive certeza que eu ia conseguir. Eu não ia desistir até eu realizar meu sonho, até eu me formar, até eu trabalhar na minha profissão. E consegui, né? Graças a Deus”, relata.A nefrologista afirma que o transplante não é uma cura da doença renal, mas uma alternativa de tratamento que permite ao paciente uma vida mais próxima do normal. “Exige imunossupressão contínua e acompanhamento médico permanente”, conclui Helen.










