Usar IA para desabafar não é ideal; psiquiatra explica riscos de transformar tecnologia em substituta de conversa

25 set 2026 - 04h58

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- Por: Marcela Ferreira

Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades

Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

“Eu não colocaria ele nesse lugar de psicólogo, mas é como um amigo”. Essa é a definição que a nutricionista Laura Oliveira, de 25 anos, dá para a relação que criou com a inteligência artificial generativa. Usuária do ChatGPT, Gemini e Claude, ela recorre às ferramentas não apenas para estudar, trabalhar ou criar imagens, mas também para falar sobre situações pessoais, pedir opiniões e até decidir que roupa usar.

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Quando acontece alguma coisa em sua vida, Laura conta que costuma abrir o ChatGPT e perguntar se agiu da maneira certa. “Acontece alguma coisa e aí, diante dessa situação que aconteceu, como eu agi, às vezes sei lá, penso ‘será que eu fiz certo? Será que não?’ Aí eu pergunto pra ele”, relata.

Para ela, a vantagem é justamente a disponibilidade e a ausência de julgamento. Há situações que prefere contar para a inteligência artificial em vez de dividir com amigos ou familiares.

“Não é que eu prefira, mas tem coisas que eu acho que ele vai responder melhor, e às vezes também acho que tem um pouco isso do julgamento. Uma coisa que eu não queira contar para ninguém, mas eu quero contar, aí eu vou e falo com ele”, diz.

A relação que Laura tem com a IA generativa – os chats – não é incomum hoje em dia. No próprio círculo social, ela relata que amigos e até o namorado também têm o mesmo costume. No entanto, ela conta que percebe que a mesma ferramenta “fala” com ela de forma diferente do que com os outros. Isso acontece porque a IA adapta a forma de conversar de acordo com o usuário, para que seja mais atrativo usá-la, dependendo da personalidade de cada um.

Apesar das palavras serem convincentes, a inteligência artificial funciona como uma base de dados que atua com probabilidades. Por isso, ela sempre dará a resposta que provavelmente o usuário procura. Isso prova que não há um senso crítico por trás do retorno como em uma pessoa, e assim, ela não necessariamente está dando um conselho, mas diz o que o usuário provavelmente gostaria de ouvir.

Uso de IA como amigo reflete necessidade de aprovação

O psiquiatra Carlos Cais explica que existe uma combinação entre uma necessidade humana e uma característica da própria tecnologia que favorece essa percepção. “O ser humano é um bicho social. Ele precisa de interação com outros humanos”, afirma.

Ao mesmo tempo, segundo ele, as inteligências artificiais apresentam um “assemelhamento ao humano” que facilita a atribuição de características como empatia, educação e acolhimento à máquina.

Cais compara o fenômeno ao personagem Wilson, a bola de vôlei do filme Náufrago (2000), estrelado por Tom Hanks. Na história, o personagem está isolado em uma ilha e cria um rosto na bola, passando a conversar com ela.

Para o psiquiatra, a situação ajuda a ilustrar como uma pessoa pode estabelecer uma espécie de parceria afetiva com um objeto sem necessariamente perder o contato com a realidade. “A IA conversa, ela é uma máquina que escolhe por probabilidade de vocabulário, completamente desprovida de qualquer empatia, de qualquer característica humana, mas ela tem um funcionamento que é muito fácil que a gente atribua características humanas a ela”, explica.
Contato humano não pode ser substituído
Para Cais, conversar com uma inteligência artificial não é necessariamente prejudicial. O ponto de atenção aparece quando ela começa a substituir as interações com outras pessoas. Para ele, a IA pode preencher temporariamente a necessidade de acolhimento em uma conversa, mas não é capaz de oferecer o mesmo que uma relação humana.
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Foto: Imagem ilustrativa/Magnific
“A pessoa está conversando com a IA e ela pode deixar de conversar com um amigo por causa dessa sensação de que a IA está preenchendo um espaço de uma necessidade humana. Só que ela não está preenchendo, de fato, esse espaço”, afirma. O risco, segundo ele, é que a pessoa deixe de procurar alguém capaz de perceber que existe um problema e indicar a necessidade de ajuda.
Por isso, um dos principais sinais de alerta é quando conversar com a ferramenta deixa de ser uma curiosidade, uma diversão ou uma maneira de organizar pensamentos e passa a ser percebido como uma necessidade.
“Eu tenho necessidade de conversar com a IA. Eu tenho necessidade de trocar. Aquilo passou a ser importante para mim. Não é mais uma diversão, uma curiosidade. Tem um peso de necessidade. Ela está ocupando um lugar inapropriado. Já acende um sinal amarelo ou vermelho”, afirma.
IA pode reforçar comportamentos
Outro risco apontado pelo psiquiatra é a tendência de a inteligência artificial oferecer respostas que sempre validam o usuário. Isso é diferente do que acontece em uma relação humana saudável, na qual o outro pode acolher, mas também questionar.
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Foto: Imagem ilustrativa/Magnific
Para Cais, isso pode ser especialmente problemático quando uma pessoa está em sofrimento ou apresenta uma compreensão distorcida de determinadas situações. Segundo ele, a ferramenta pode reforçar interpretações recorrentes como a ideia de que uma pessoa é sempre vítima das circunstâncias ou de que nunca tem participação nos problemas que enfrenta.
“Numa troca mais saudável, a pessoa espera o vínculo correto, o momento correto para te questionar. ‘Olha, mas espera um pouquinho. Se isso está acontecendo repetidamente com você na sua vida, será que não tem nada seu aí nessa história?’”, exemplifica.
Por isso o psiquiatra reforça a importância de sempre tratar problemas psicológicos com outra pessoa, de preferência um profissional, capaz de fazer questionamentos.
Cais afirma que nem sempre a IA é prejudicial, e que há momentos em que ela pode ser útil para um paciente organizar seus pensamentos e sentimentos, antes de levar as informações para uma consulta, por exemplo. No entanto, é preciso cuidado para que o uso da IA seja feito de forma saudável. “No final das contas, depende do que o humano vai fazer com essa ferramenta”, resume.
Fonte: Portal Terra
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