Brasil

Exclusivo para assinantes

Oscilação Anular Antártica e bloqueio atmosférico sobre o Pacífico transformam mês tradicionalmente quente em chuvoso

0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x

00:00

00:00

Historicamente quente, setembro fica chuvoso em 2026 — Foto: Marcelo Theobald
As chuvas e as baixas temperaturas dos últimos dias têm levado muita gente a se perguntar onde está o El Niño, que ameaçava torrar o Brasil em setembro. O fenômeno segue forte no Oceano Pacífico, garantem meteorologistas, e sua ação é sentida no Rio Grande do Sul e em parte da Amazônia. Porém, fenômenos naturais menos conhecidos amenizam o tempo em boa parte do país e deixam setembro, historicamente seco e quente, excepcionalmente chuvoso e frio.
- Tornados: Alerta meteorológico indica risco do fenômeno em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná
- O chão chacoalhou: Tremor de terra de magnitude 2.0 é registrado em cidade da Bahia
E a situação deve seguir assim, ao menos, nas duas próximas semanas, beneficiando os reservatórios e a agricultura, afirma o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden):
— Está chovendo bastante, sobretudo no Centro-Oeste e no Sudeste. Até estados do Norte e do Nordeste, como Tocantins e Maranhão, têm tido chuva. Isso é muito raro em setembro, com ou sem El Niño. Setembro marca o auge da combinação de calor e baixa umidade em quase todo o Brasil. Não à toa, é o mês das grandes queimadas. Mas não é isso que está ocorrendo.
Chuva durante o Rock in Rio, no último dia 6 — Foto: Alexandre Cassiano
A explicação está na complexidade da atmosfera. O El Niño tem grande influência no clima do Brasil, mas outros fenômenos podem reforçar ou enfraquecer seus efeitos, dependendo de como se combinam. É o que ocorre agora: dois padrões estão favorecendo a entrada de frentes frias no país e ajudando a espalhar umidade pelo Centro-Sul.
— É por isso que previsão é tão difícil. Mudanças pequenas podem fazer grande diferença. Neste momento, a atmosfera funciona como uma espécie de “La Niña temporária”. As chuvas estão acima da média em todo o Centro-Sul. Essa situação deve seguir pelos próximos 15 dias, talvez até mais — frisa Seluchi.
Fatores associados
Um dos fenômenos em ação é a Oscilação Anular Antártica (OAA), ligada a um movimento natural dos ventos que circulam a Antártica. Quando está em sua fase negativa, como agora, esse cinturão de ventos se enfraquece e permite que massas de ar frio se desloquem mais ao norte, pela América do Sul.
Essas massas seguem em direção ao Brasil como frentes frias. No caminho, encontram o Atlântico mais quente, devido a mudanças climáticas. Isso gera mais vapor d’água. O resultado é mais umidade disponível para as frentes, que provocam chuva ao avançar pelo continente.
Outro fator é um bloqueio atmosférico sobre o Pacífico, em uma posição que canaliza essas frentes frias para o Brasil. Em anos de El Niño, esse tipo de bloqueio tende a ser menos frequente. Neste ano, porém, está ativo e contribui para que o ar frio avance mais ao norte, chegando ao Sudeste e ao Centro-Oeste.
— Essa é a configuração ideal para as frentes frias se expandirem para o norte. Como já estamos entrando na primavera, a temperatura não fica tão baixa, mas o calor diminui — diz Seluchi.
Os mapas das chuvas de setembro — Foto: Editoria de Arte
É essa combinação que ajuda a explicar um setembro tão diferente do habitual. As frentes frias despejam chuvas e baixam a temperatura no Sul, no Centro-Oeste, no Sudeste e até em partes do Nordeste e da Amazônia. No Centro-Sul há anomalias, como chuvas acima da média, nos últimos 60 dias.
Segundo Seluchi, o cenário tem sido positivo para o Sistema Cantareira e as bacias dos rios Paraná e Paraíba do Sul. No Pantanal, onde setembro costuma ser um dos períodos mais secos do ano, a chuva também ajudou a reduzir o risco de incêndios.
O ideal, segundo o meteorologista, seria que o período mais úmido se prolongasse e emendasse na estação chuvosa, em novembro. Por ora, é impossível de prever.
— Na atmosfera nada é permanente ou muito rígido. Tudo é oscilação, inclusive o próprio El Niño — acrescenta Seluchi.
Alerta mantido
Isso não significa que o El Niño tenha deixado de produzir efeitos no Brasil. No Norte, por exemplo, sua influência acontece em Roraima, no norte do Pará e no Amapá, onde o tempo está mais seco e o risco de incêndios aumenta.
Desde julho, também chove acima da média no Rio Grande do Sul, outro padrão associado ao El Niño.
O El Niño não é uniforme. Está intenso em outros pontos do planeta. Este mês já gerou três ciclones simultâneos no Pacífico: Marie, Karina e Lowell. A própria intensificação do fenômeno tem sido desigual. Após ganhar força sem parar desde junho, a água do Pacífico Equatorial se mantém há um mês 1,8°C acima do normal — o patamar para caracterizar um El Niño é 0,5°C.
O fenômeno já é considerado forte e a expectativa é que a temperatura da água chegue a 2°C acima da média, levando-o à categoria de muito forte. Porém, onde, como e quando ele causará maiores impactos está além da possibilidade de previsões acuradas.
— As oscilações do clima são temporárias. A previsão é que o El Niño seja muito forte, com potencial de grande impacto. É preciso se preparar — adverte Seluchi.
Mais recente Próxima Novas manchas de óleo são encontradas em outra praia de Maceió

