Dia dos Professores: quem cuida dos docentes?

‘Está impossível’; ‘ninguém cuida da gente’: professores que já desabafaram em posts do g1 contam suas histórias
‘Está impossível’; ‘ninguém cuida da gente’: professores que já desabafaram em posts do g1 contam suas histórias · Imagem: Source: g1.globo.com

Em posts recentes sobre reportagens de Educação nas redes sociais do g1, foram feitos comentários como:

- “Impossível trabalhar com mais de 30 alunos em sala.”

- “Sou professora da rede pública e tenho propriedade para dizer: está cada vez mais difícil e, muitas vezes, humilhante. Falta material e, muitas vezes, tiramos dinheiro do próprio bolso para trabalhar.”

- “Só em uma escola, dou aula para 13 turmas de 4 séries diferentes, em duas disciplinas. E nem assim alcanço o piso salarial.”

- “Estamos todos adoecendo.”

- “O problema da desistência de professores se resume em sobrecarga física e psicológica, indisciplina dos alunos e falta de autonomia.”

- “Tudo é culpa do professor. Existe uma campanha de desvalorização”.

Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, você lerá o que os autores destes comentários têm a dizer sobre o desamparo sentido por docentes no Brasil.

É claro que há variações de escola para escola, de rede para rede. Mas o eixo central de todos os depoimentos segue um roteiro parecido: profissionais que cuidam de dezenas de crianças e adolescentes, mas que não se veem cuidados por absolutamente ninguém.

Nenhum deles quer ser visto como “coitadinho”, isso fica claro. O que eles demonstram é uma revolta com o descompasso entre a importância da atividade que desempenham e as condições nas quais precisam trabalhar.

Salas superlotadas

De Santo André, no ABC paulista, Janaína Jascone, de 43 anos, comentou em uma publicação do g1:

Comentário da professora Janaína Jascone — Foto: Reprodução/Redes sociais

Ela conta que, além de ter um número excessivo de turmas na escola pública onde trabalha, cada classe é superlotada.

“Na primeira aula, entro em um universo. Dali a 50 minutos, vou entrar em outro. Depois, em outro. A primeira aula é calma, a segunda já é agitada, a terceira, depois da educação física, é com a adrenalina lá em cima… Vão ser seis em uma manhã só. Quem cuida da nossa saúde mental?”, diz.

“É muita gente, e cada turma tem seu ritmo. No ano passado, eu tinha uma com 49 adolescentes. Ensinar é a parte mais gostosa, mas, em um dia feliz, em uma aula de 50 minutos, eu consigo dar 15 minutos de conteúdo. O resto é mediando conflito”, diz. “

Hudson Araújo, que leciona história na rede estadual de Roraima, acrescenta que a lista de atribuições dos docentes só aumenta — somando-se à pressão e à cobrança crescentes.

“A gente tem de ser professor, pai, líder religioso, psicólogo, assistente social… em uma sala com 40 alunos. São 10, 20 salas na mesma lógica. E ainda é preciso produzir cada vez mais, preencher todas as plataformas [digitais]… Existem metas a serem batidas”, afirma.

Comentário do professor Hudson Araújo — Foto: Reprodução/Redes sociais

Agressões, indisciplina e descredibilização

A pesquisa “O Estado do Professor Brasileiro”, do Instituto Casagrande, mapeou quais são os maiores desafios enfrentados pelos docentes em cada etapa de ensino. Veja os destaques:

- Educação infantil: desvalorização social em relação ao papel dos pedagogos

- Ensino fundamental I: auge da perda de autoridade do professor em sala (93,4% dos docentes apresentam essa queixa)

- Ensino fundamental II: núcleo mais vulnerável. Maiores percentuais de esgotamento, de problemas de relação com as famílias e de intenção de abandonar a profissão

- Ensino médio: mais trabalho fora do expediente, percepção de piora severa na atenção dos alunos, desrespeito dos adolescentes

“Qual é o mecanismo que você tem para combater a indisciplina em sala de aula?”, questiona Leviston Silveira, professor nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio públicos em Curitiba.

“Muitas vezes, você tira o aluno da sala, para ele ir até a coordenação. Depois, ele vai retornar e continuar fazendo exatamente a mesma coisa de antes.”

Comentário do professor Leviston Silveira — Foto: Reprodução/Redes sociais

A união entre professor e família está cada vez mais frágil, apontam os docentes entrevistados.

“A escola virou um depósito. Os pais acham que o professor é obrigado a dar conta de tudo e de todos. Tudo o que não der certo é culpa nossa”, diz Maria Luzia, docente da educação infantil pública de Brasília.

“Um menino simplesmente subiu na cadeira e me deu um tapa no rosto do nada. A gente sempre reporta esse tipo de comportamento para os pais, né? Manda na agenda, falando para conversarem com a criança. Mas a mãe, nesse caso, foi até a escola e disse que levei o tapa porque mereci”, conta.

Maria, que cumpria contrato temporário, decidiu se afastar do trabalho após o nascimento de seu bebê. Quando fala da possibilidade de retomar a carreira, chora. Diz que amava o que fazia, mas que não consegue mais se imaginar novamente em sala de aula.

Comentário da professora Maria — Foto: Reprodução/Redes sociais

Ela relata que se sentia sob vigilância constante. Uma atividade infantil para refletir sobre mudanças necessárias em um parquinho, por exemplo, foi motivo para ouvir reclamações de que estaria doutrinando seus alunos.

Essa sensação é mencionada também por Hudson, que trabalha com adolescentes.

“Eu tenho medo de falar de nazismo, direitos das mulheres, religião… Porque sei que tudo vai se voltar contra mim. O professor, na nossa atualidade, virou um bode expiatório para tudo o que há de ruim na sociedade.”

Falta de material e de estrutura

Leviston dá aula de ciências em uma escola sem laboratório. Essa é a realidade de 80% dos colégios públicos no ensino fundamental II, aponta o Anuário Brasileiro da Educação Básica, da ONG Todos Pela Educação.

“A vida dos professores fica muito difícil. Os alunos ficam ainda mais desinteressados pelo conteúdo. Isso aumenta o nosso adoecimento”, diz. “Imagine um jovem que quisesse virar professor também. Quando ele vê esse tipo de situação, desiste.”

Janaína, que dá aula de inglês na rede pública, tentou elaborar um projeto criativo que engajasse os alunos. Eles ficaram animados com a proposta, dedicaram-se a gravar vídeos curtos dentro da proposta… mas, no dia de mostrarem o resultado para os colegas, o sistema tecnológico da escola não funcionou.

“Tentei rotear internet do meu celular para ver na televisão. Outro aluno tentou, outra aluna tentou… Fui procurar um cabo HDMI, e estavam todos quebrados. Perdi uma aula de 50 minutos porque não há manutenção técnica”, diz a professora.

É comum que as soluções sejam encontradas individualmente pelos docentes — e com o dinheiro deles próprios.

Maria tinha um aluno com deficiência que responderia melhor às aulas se visse imagens mais realistas no material pedagógico. A escola, no entanto, não permitia a impressão colorida.

“Eu comprei uma impressora e imprimi tudo em casa. Todos os livros que passo acabo comprando. Compro porque não tem. É isto: se um educador quiser realmente ver os alunos se desenvolverem, vai ter de fazer acrobacias assim para conseguir, pagando do seu bolso”, relata.

A inclusão de alunos com deficiência também é prejudicada pela falta de apoio aos docentes, conta Leviston.

“Você tem um aluno com transtorno do espectro autista, às vezes nível 3 [de suporte], que é mais grave e que precisa de atenção maior. Tem também um com TDAH, outro que nem é laudado, mas que está com depressão. E no meio disso, outros 30 alunos, todos na mesma turma. Como que o professor lida com isso sem um auxiliar na sala?”, questiona.

Salário insuficiente

O levantamento Education at a Glance 2026, elaborado pela OCDE e divulgado em setembro, mostrou que somente 22,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental se dizem satisfeitos com o salário que recebem. É um dos piores índices registrados entre os países avaliados.

Por mais que a criação de um piso nacional do magistério tenha trazido avanços, os docentes percebem um descompasso entre o que fazem e quanto ganham.

“A questão salarial vai ser sempre um peso enorme. Eu trabalho tanto, para receber menos do que outros profissionais que estudaram o mesmo tanto que eu. Estou no doutorado agora. Mas sei que, quando terminar, como professor-doutor, vou estar ganhando como um graduado de outra profissão. Ou até menos”, afirma Hudson.

E professores não trabalham apenas no período em que estão na escola: precisam planejar aulas, corrigir provas e acompanhar a evolução de cada aluno.

“Para eu trabalhar, eu tenho que trabalhar antes de trabalhar. E depois que eu trabalhei, eu tenho que trabalhar de novo em cima do que eu trabalhei para trabalhar a próxima parte do trabalho. Essa é a vida do professor”, diz.

“A gente sabia que seria assim, mas, caramba, dentro do mercado formal de trabalho, o professor ganha menos. Não dá para entender.”

Quais as reivindicações?

Abaixo, veja quais foram as reivindicações feitas pelos professores ouvidos nesta reportagem:

✏️Valorização e equiparação salarial: Cumprimento efetivo do Piso Nacional do Magistério sem o uso de gratificações temporárias ("penduricalhos") para maquiá-lo; reajustes que equiparem a remuneração a outras carreiras que exigem ensino superior e pós-graduação (mestrado/doutorado).

✏️Redução do número de alunos por turma: Diminuição da superlotação nas salas de aula, permitindo um ambiente propício ao aprendizado, à atenção individualizada e à mediação da disciplina.

Luciléia Ramos, professora de artes em Praia Grande (SP), comentou sobre isso em um post do g1.

Comentário da professora Luciléia Ramos — Foto: Reprodução/Redes sociais

“A educação de qualidade não depende apenas do esforço individual do professor, ela também exige condições reais para que esse trabalho aconteça”, disse, em entrevista à reportagem.

✏️Autonomia docente e flexibilização da "plataformização": Devolução da autonomia pedagógica e da liberdade de cátedra aos professores, reduzindo o uso rígido de plataformas digitais obrigatórias que “engessam” as aulas.

✏️Fim da aprovação compulsória: Restabelecimento da autoridade do professor no conselho de classe para reter estudantes com deficiências graves de aprendizagem, eliminando a “maquiagem” de índices educacionais (como Ideb).

✏️Maior responsabilidade e acompanhamento das famílias: Resgate do compromisso dos pais ou responsáveis no acompanhamento do estudo e do comportamento dos filhos, formando uma parceria com a escola.

✏️Suporte à saúde mental: Implementação de redes estatais efetivas de apoio psicológico e médico voltadas aos docentes, além da oferta de plano de saúde para professores efetivos e temporários.

“Quando olhamos para os 30% de escolas que oferecem algum tipo de suporte de saúde mental, como psicólogo ou psicopedagogo, nunca o benefício contempla o professor. Ele não é visto pelas políticas públicas de saúde física e mental implementadas nos colégios”, diz Thiago Zola, diretor de educação da Mind Lab, empresa que promove educação socioemocional em escolas públicas.

✏️Garantia de direitos e estabilidade para contratados temporários: Fim da extrema precarização dos vínculos temporários, garantindo direitos trabalhistas e impedindo a perda do vínculo ou remuneração durante licenças médicas.

✏️Melhoria da infraestrutura física básica: Garantia de estruturas essenciais nas escolas — como carteiras adequadas, climatização/ar-condicionado, fiação funcional e laboratórios de ciências — antes da implementação de modelos como o ensino em tempo integral.

Maria cita o que seria necessário para voltar a dar aula e relembra a esperança que sentia quando prestou vestibular para Pedagogia.

“Eu via a minha professora como se fosse uma fada, sabe? A coisa mais preciosa do mundo. Eu quis seguir essa carreira por causa disso. Quando eu aprendi a ler pelas mãos dela [da docente], aquilo ali mudou a minha vida. Eu amo minha profissão, mas não sou professora por amor. Não sei se ainda vale a pena. Ninguém cuida da gente”, diz.