Juliana Agatte diz que Governo negocia cota de ingressos populares para a Copa feminina

A nove meses do início da Copa do Mundo feminina de 2027, disputada pela primeira vez no Brasil, o Governo Federal articula com a Fifa uma cota de ingressos a preços populares, afirma a secretária Juliana Agatte, que chefia a Secretaria Extraordinária para a Copa (Secopa) do Ministério do Esporte.

– Nesse olhar do acesso e da democratização desse espaço, queremos que esse público diverso, com a cara do povo brasileiro, esteja presente nos estádios – disse.

Segundo ela, em entrevista ao ge, a Fifa tem se mostrado aberta à discussão e sensível à realidade do país – que receberá novamente um Mundial 13 anos depois da Copa masculina de 2014, quando as relações com a entidade ficaram marcadas pelo desejo do então secretário-geral, Jerome Valcke, de dar um “chute no traseiro” do Brasil.

Desta vez, porém, as principais estruturas para receber as 32 seleções, a partir de junho, estão prontas. Isso torna mais discreto o papel do poder público na organização do torneio, mas não menos importante.
Economista de carreira no setor público, Juliana Agatte foi nomeada em fevereiro para comandar o órgão que atua na coordenação de ações das três esferas de governo e na articulação com a Fifa.
Juliana Agatte, secretária extraordinária para a Copa do Mundo de 2027 — Foto: Reprodução
Cabem ao governo responsabilidades como segurança, logística e infraestrutura, além de garantir o cumprimento de exigências da federação internacional, como as isenções tributárias.
Agatte afirmou que atua para que a competição seja uma ferramenta para acelerar o desenvolvimento do esporte feminino no país.
– A gente tem trabalhado em quatro frentes. Uma que entendemos que é a principal de participação do poder público é a questão do acesso e permanência de meninas e mulheres no esporte. Todos os indicadores para as mulheres são menores.
Taça da Copa do Mundo Feminina é exposta em evento de um ano para o torneio, em Miami — Foto: Cahê Mota / ge
Nesse sentido, ela defendeu a paralisação do calendário do futebol nacional durante a disputa da Copa, algo previsto desde a candidatura do país, em 2023, e confirmado recentemente pela CBF.
– Ainda resistimos em dizer que o futebol feminino está aí, que é um produto, e ele é um produto importante, tem muitos patrocinadores. O futebol no Brasil ganha com isso. A Copa do Mundo de futebol feminino é uma oportunidade para a gente discutir o futebol brasileiro na sua amplitude, na sua diversidade.
Agatte acredita que a crise na Fifa não deve afetar a organização da Copa. O presidente Gianni Infantino está sob pressão há um mês, desde que foi revelado o projeto de criação de uma empresa, com participação de investidores privados, que reuniria os principais direitos comerciais da entidade, como os da Copa do Mundo.
A ideia foi abandonada, mas confederações como a Uefa, a AFC (da Ásia) e a Concacaf (que reúne países da América Central, América do Norte e do Caribe) se uniram num bloco de oposição ao principal dirigente da entidade.
Nesse período, entretanto, marcos relacionados à Copa foram anunciados normalmente, como o calendário de jogos, a data do sorteio dos grupos (11 de dezembro) e o início da seleção de voluntários.
– A nossa preocupação é que isso não impacte aqui. Mesmo as declarações recentes, a possibilidade de algumas seleções europeias não estarem presentes. A gente entende que a Fifa tem blindado esse assunto. Que essas agendas da governança das instituições do futebol estejam num outro lugar, e a gente consiga conduzir (a organização da Copa) da melhor forma possível, com o menor impacto.
Leia a entrevista:
ge: O Governo Federal tem um papel diferente nesta Copa se comparada à de 2014, quando foi necessário construir estádios, investir em infraestrutura. Qual é o papel da secretaria para a Copa de 2027?
Juliana Agatte: – Hoje a gente realiza uma Copa do Mundo feminina porque tem esse legado de 2014, dos estádios terem sido preparados, dos aeroportos, da mobilidade urbana. Apesar de algumas infraestruturas precisarem ser adequadas. A gente tem dito que a Copa do Mundo no Brasil é uma grande plataforma para trabalhar toda a discussão do legado social, esportivo e um legado de impacto econômico. Um estudo que a Embratur encomendou à FGV traz essas frentes de impacto, a possibilidade de geração de 73 mil empregos diretos e indiretos. O grande papel da Secretaria Extraordinária da Copa é conduzir essa governança, essa agenda com todos os interlocutores para entrega e realização desse grande evento.
Secretária da Copa-27 do Ministério do Esporte fala sobre o legado esperado pós torneio
Fala-se muito em legado. Depois que a Copa terminar, em 25 de julho do ano que vem, qual o cenário que você projeta para o esporte?
– A gente tem trabalhado em quatro frentes. Uma que a gente entende que é a principal de participação do poder público é a questão do acesso e permanência de meninas e mulheres no esporte. Todos os indicadores para as mulheres são menores. Então aí (entra) a ampliação de base. Fizemos uma reunião com o Ministério da Educação. Estamos fazendo um mapeamento de como é a oferta de futebol feminino nas escolas em tempo integral.
– O segundo eixo que a gente traz é o da profissionalização do futebol e mais mulheres em ambientes de gestão do esporte. Recentemente foi aprovada na Câmara a Lei de Desenvolvimento do Futebol Feminino, que está para ser aprovada no Senado.
– No terceiro eixo a gente traz a segurança, combate a todas as formas de violência contra as mulheres e também combate ao racismo nesse ambiente esportivo. Que esse ambiente do esporte, do futebol e da sociedade seja mais seguro para as mulheres.
– No quarto ponto, a gente traz essa transformação cultural, de olhar esse futebol feminino na sua trajetória desde a proibição até hoje, sem os estereótipos. Entendo que o poder público está muito nesse eixo um e no eixo três, mas essa agenda da profissionalização, ela compete muito aos clubes, às federações e às instituições responsáveis pelo futebol.
Com relação à segurança para a Copa, como têm sido as discussões? Quais são os gargalos identificados?
– Na Câmara Temática de Segurança, todas as forças policiais estão presentes. A gente trabalha numa matriz de responsabilidades e o objetivo é publicar o plano estratégico integrado de segurança, que se integra com as forças dos estados e dos municípios também nessa agenda de prestar o melhor serviço de segurança possível. Na partida Brasil x EUA, (amistoso em junho) na Arena Castelão (Fortaleza), fizemos um teste da nossa central de monitoramento. O sorteio (dos grupos, em dezembro, no Rio) também vai ser um outro evento de teste. Os desafios são esses, de cada um entender a sua responsabilidade e competência, para não ficar nenhuma lacuna.
A Fifa indicou ao governo quais são as principais preocupações com a segurança na Copa?
– Os pontos mais relevantes que vêm para a gente são as escoltas das delegações, o receptivo. O acompanhamento também dos chefes de Estado, das delegações. A preocupação também da segurança nas Fan Fests. E as varreduras todas que a gente faz nos ambientes.
Arena Castelão será uma das sedes da Copa feminina — Foto: Giovanna Borges
A senhora comentou que a Fifa espera mais de dois milhões de torcedores e que cerca de 10% seriam de turistas estrangeiros. O cálculo de vocês é o mesmo?
– A gente está trabalhando em cima dessa informação. A Embratur está muito engajada nessa agenda. Temos trabalhado muito junto com eles, com um foco muito grande na América do Sul, porque é a primeira Copa no Continente. A América do Sul também é uma grande consumidora, gosta de futebol. Foco nos Estados Unidos, China e também Austrália, Nova Zelândia e alguns países europeus.
A Lei Geral da Copa prevê a criação de um visto eletrônico para facilitar a vinda desses turistas. Como está esse processo?
– Já publicamos uma portaria sobre essa questão. Estamos no desenvolvimento do sistema. Até mesmo porque a gente quer o quanto antes, já que virão também representações internacionais para o sorteio. Está no alinhamento do sistema Ministério de Relações Exteriores, responsável por desenvolver o sistema e a integração com o sistema Fifa. Queremos entregar nos próximos meses, de preferência antes do sorteio. Esse visto funcionará para pessoas credenciadas e com ingressos.
O transporte de torcedores se tornou um tema conflituoso nos EUA, na Copa do Mundo deste ano. Como estão as negociações para implantação de um passe livre a pessoas com ingressos no Brasil?
– Esse é um trabalho direto da Fifa com os municípios que a gente tem monitorado, tem acompanhado um pouco das discussões. É o que está na pauta dos municípios, ter o passe livre para quem tem ingresso. Eles estão fazendo todo o dimensionamento dos custos, se vai ser para o contingente todo, se não, se é um título específico de ingresso.
– Na legislação da Copa, a gente garantiu 50% de desconto (no ingresso) ao que já é garantido no Brasil, como idosos, pessoas com deficiência, juventude, (pessoas de) baixa renda. Então a gente entende que esses, em especial, é o que a gente tem conversado da importância de ter mesmo passe livre, porque o acesso é fundamental
Sobre os ingressos, você já comentou sobre uma cota de ingressos sociais. Como o governo tem defendido essa pauta com a Fifa?
– Eles estão com essa preocupação de lotar os estádios. Para lotar os estádios em todas as partidas, a gente precisa oferecer as condições favoráveis. Tanto a política de transporte, quanto uma política de ingressos adequada às características da população brasileira. A gente tem conversado muito. Eu entendi que eles estão sensíveis a isso. A gente já tem a garantia desses ingressos de 50% (de desconto) e tem essa sinalização dos ingressos sociais, a possibilidade de pacotes familiares também. Na visão do governo, nesse olhar do acesso e da democratização desse espaço, queremos que esse público diverso, com a cara do povo brasileiro, esteja presente nos estádios.
Quais são as isenções tributárias que serão garantidas à Fifa?
– Tivemos alguns marcos legais já aprovados. Tivemos a legislação da Copa aprovada em junho. Depois, a legislação de isenção do ISS (Imposto Sobre Serviços). Os Estados publicam também (leis) relacionada ao ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Duas semanas atrás, tivemos possibilidade de isenções na legislação tributária, com foco na Copa, de importação. É importante trazer essa discussão tributária, porque junto com ela, trazemos o potencial de impacto do grande evento. É sinalizado, de movimentação financeira, R$ 8,8 bilhões, com a possibilidade de emprego direto e indireto de 73 mil pessoas no setor de serviços, hotelaria. Essas isenções que são oferecidas são muito aquém do potencial de impacto econômico e de desenvolvimento do evento.
A CBF anunciou que o calendário do futebol será paralisado para a Copa do Mundo do ano que vem, o que gerou discussão sobre essa necessidade, o que me parece ter origem nos estereótipos que você citou antes. Como você analisa?
– Eu também acompanhei com surpresa, porque esse é um modus operandi de Copas do Mundo, independentemente se ela é masculina ou feminina. São oito cidades-sede. Os principais estádios são direcionados para recepcionar o torneio, fora os CTs todos que são colocados à disposição para as delegações. É um olhar mesmo do holofote para a Copa do Mundo Feminino, para concentrarmos todas as energias nesse grande momento. Isso está anunciado desde 2023, quando assinamos as garantias. Eu também fiquei surpresa, mas eu acho que superamos, e o importante é a gente comunicar o porquê e conversar numa boa sobre isso. A gente ainda resiste em dizer que o futebol feminino está aí, que ele é um produto, e ele é um produto importante, tem muitos patrocinadores. O futebol no Brasil ganha com isso. A Copa do Mundo de futebol feminino é uma oportunidade para a gente discutir o futebol brasileiro na sua amplitude, na sua diversidade.
Secretária da Copa-27 rebate críticas à pausa no calendário para o torneio
Como tem sido a relação com a Fifa para a organização da Copa?
– As lideranças na Fifa que estão conduzindo essa agenda têm muita experiência, são muito engajadas. A gente tem percebido que tem uma abertura para essa discussão. É claro que às vezes surgem as discussões mais contundentes. Mas isso faz parte, porque a gente está falando da realização de um grande evento. Temos pautado essas discussões de ter público com a cara da população brasileira presente nos estádios. É uma oportunidade. Queremos deixar o legado, não olhar só para os 90 minutos.
A crise política na Fifa gera alguma preocupação a menos de um ano da Copa?
Secretária da Copa feminina afirma que torneio está blindado de crise política da Fifa
– A nossa preocupação é que isso não impacte aqui. Mesmo as declarações recentes, a possibilidade de algumas seleções europeias não estarem presentes. A gente entende que a Fifa tem blindado esse assunto. A nossa preocupação, como governo, é que a gente consiga realizar um grande evento e que todas as delegações estejam presentes, uma Copa que tenha esse legado. Que essas agendas da governança das instituições do futebol estejam num outro lugar, e a gente consiga conduzir da melhor forma possível, com o menor impacto.
Nota da redação: a Uefa chegou a anunciar um boicote a competições da Fifa, em meio aos atritos com Infantino, mas a ameaça foi abandonada. Seleções europeias estão participando normalmente da Copa do Mundo feminina sub-20 na Polônia nesta semana.


