A motocicleta Trail nasceu com vocação para a terra. A Big Trail acrescentou potência, tecnologia, conforto e a promessa de atravessar continentes. Mas foi a cidade brasileira que acabou descobrindo outra utilidade para as duas.Hoje, a família vai das pequenas Trails usadas por entregadores, prestadores de serviços e trabalhadores que rodam o dia inteiro às sofisticadas BMW, Triumph e Honda de mais de 1.000 cilindradas que passam a maior parte da vida entre semáforos.E há uma explicação: poucas categorias de motocicletas combinam tão bem com a precariedade urbana brasileira.Buracos, valetas, quebra-molas, asfalto remendado, ruas de terra na periferia, alagamentos e meio-fio transformaram características originalmente pensadas para o fora de estrada em vantagens dentro da cidade.Só que existe uma diferença fundamental. Quanto menor a cilindrada, mais a Trail tende a ser ferramenta. Quanto maior, mais passa a incorporar conforto, prazer e desejo.Na base da pirâmide estão motos como Honda NXR 160 Bros, Yamaha Crosser 150 e Honda XRE 190, sem falar das valentes chinesas.São Trails urbanas por excelência.A Bros 160 representa quase a antítese da Big Trail de 1.200 ou 1.300 cilindradas. Tem motor pequeno, peso reduzido, manutenção relativamente simples, consumo baixo e suspensão suficiente para encarar justamente aquilo que destrói o conforto de uma motocicleta convencional nas cidades brasileiras.A Yamaha Crosser 150 trabalha na mesma lógica. É leve, alta, econômica e suficientemente robusta para passar o dia subindo em calçada, entrando em rua ruim, atravessando bairros periféricos ou carregando baú. Já a XRE 190 acrescenta um pouco mais de motor sem abandonar essa filosofia.Vale destaque também para o excelente custo-benefício e uma Haojue NK 150, de construção robusta, posicionando-se como uma alternativa inteligente às líderes da categoria, numa compra que pode economizar até R$ 6 mil. Dona de um motor de 149 cm³ que gera 12 cv de potência , ela surpreende pelo baixíssimo nível de vibração e excelente economia de combustível.Para o entregador, técnico de manutenção, vendedor, instalador, representante comercial, motofretista ou pequeno empreendedor que percorre dezenas ou centenas de quilômetros por dia, peso e consumo deixam de ser detalhes de ficha técnica. Viram custo de produção.Cada quilômetro por litro significa dinheiro.Cada quilo a menos significa menos esforço depois de oito horas trabalhando.Cada centímetro adicional de curso de suspensão significa menos pancada na coluna depois de atravessar cinquenta quebra-molas.É por isso que uma Trail de 150 a 200 cc pode ser uma das motocicletas mais racionais para trabalho urbano. Não foi feita para impressionar ninguém no estacionamento. Foi feita para continuar trabalhando.Subindo para a faixa dos 250 a 300 cc, muda um pouco a equação.Motos como a Honda Sahara 300 mantêm a agilidade e a relativa leveza das pequenas Trails, mas acrescentam uma reserva de potência importante para quem precisa utilizar vias expressas, rodovias próximas às regiões metropolitanas ou carregar garupa e bagagem.Para muita gente, está aí o ponto de equilíbrio.Uma Trail na casa das 300 cilindradas já permite sair da cidade com muito mais tranquilidade sem impor ao motociclista o peso, o consumo e o custo de uma Big Trail. Continua suficientemente estreita para enfrentar trânsito pesado e suficientemente simples para ser utilizada diariamente.Depois vem uma espécie de zona intermediária.A Honda NX500, com 471 cc, já oferece quase 50 cv e começa a aproximar dois mundos. Ainda tem dimensões administráveis na cidade, mas passa a oferecer capacidade rodoviária muito superior às pequenas Trails.É a motocicleta para quem trabalha de segunda a sexta-feira e quer viajar no sábado sem precisar ter duas motos na garagem.Mais acima aparece a Honda NC750X, de 745 cc. Tecnicamente é uma crossover, mas merece entrar na discussão porque talvez seja uma das grandes demonstrações de que potência não é tudo no ambiente urbano. Seu motor privilegia torque em baixas e médias rotações, o banco é relativamente baixo para o porte e existe transmissão DCT.Aliás, no engarrafamento, câmbio automático deixa de ser luxo tecnológico e passa a ser conforto físico.Na faixa dos 700 aos 900 cc, entram motocicletas como Honda XL750 Transalp, BMW F 800 GS, Yamaha Ténéré 700 e Triumph Tiger 900, entre os modelos das marcas tradicionais.Elas enfrentam a cidade, viajam muito bem e, dependendo do modelo, encaram terra com competência. A Transalp e a Ténéré preservam forte identidade aventureira. A F 800 GS procura equilibrar conforto, tecnologia e versatilidade. A Tiger 900 adiciona desempenho e refinamento.Acontece que, para dispor de mais potência, o comprador precisará de mais dinheiro. Além de um desembolso maior na compra, o feliz proprietário gastará mais com pneus mais caros, seguro potencialmente maior e manutenção mais sofisticada. A vida ficará mais difícil em baixa velocidade.Para fechar o estande, temos de falar das maxi-trails com suas máquinas extraordinárias. Elas viajam bem com garupa e bagagem, oferecem enormes reservas de torque e potência, eletrônica sofisticada, proteção aerodinâmica e conforto para percorrer centenas de quilômetros.Como referência, vale trazer pra roda maxi-trais como Honda Africa Twin 1100, Triumph Tiger 1200 e BMW R 1300 GS pertencem a outro universo.Entretanto - bota entretanto nisso… - uma BMW R 1300 GS presa num congestionamento continua sendo uma magnífica motocicleta. Mas boa parte da engenharia pela qual seu proprietário pagou está esperando a estrada aparecer.E peso importa.Importa quando se precisa entrar num corredor estreito de um grande centro brasileiro. Importa na garagem. Importa na hora do seguro. Importa ao estacionar numa rua inclinada. Importa quando é necessário empurrar a moto para trás. E importa especialmente quando os 200 e tantos quilos começam a tombar e o motociclista descobre, em uma fração de segundo, que as leis da física não reconhecem logotipo premium.Existe, portanto, uma espécie de escada da racionalidade urbana.Entre 150 e 200 cc, a Trail é essencialmente eficiência: Bros 160, Crosser 150 e XRE 190 representam transporte econômico, resistência e enorme vocação profissional.Na casa das 300 cc, surge um dos melhores compromissos para quem precisa trabalhar, circular diariamente e eventualmente pegar estrada. A Sahara 300 exemplifica essa proposta.Entre 450 e 500 cc, começa uma transição interessante: ainda existe relativa leveza, mas já há motor para viagens e rodovias com bastante tranquilidade. É o território da NX500.Entre 700 e 900 cc, a motocicleta se transforma numa verdadeira faz-tudo. NC750X, Transalp, Ténéré 700, F 800 GS e Tiger 900 oferecem diferentes combinações de cidade, estrada e aventura.Acima dos 1.000 cc, entramos numa categoria em que necessidade e paixão começam a se separar.Africa Twin, Tiger 1200 e R 1300 GS podem perfeitamente levar alguém ao escritório. Mas foram construídas para fazer muito mais do que isso.E talvez seja justamente essa enorme variedade que explique o sucesso da arquitetura Trail.O executivo que atravessa a cidade numa GS de 1.300 cc e o entregador que trabalha numa Trail de 160 cc parecem habitar universos econômicos completamente diferentes. Mas escolheram, por razões distintas, uma solução mecânica com posição elevada, guidão largo, suspensões de curso generoso e capacidade de enfrentar pisos ruins.Um procura conforto, tecnologia e prazer.O outro procura produtividade, economia e resistência.Os dois encontraram uma motocicleta adaptada a uma realidade que os fabricantes talvez não tenham criado, mas que o Brasil aperfeiçoou.Porque, por aqui, a Trail não precisa procurar uma trilha.Basta sair de casa!✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp












