Quando a maré sobe em Santos, o problema não termina na faixa de areia. A pressão da água pode alcançar a drenagem ligada ao Canal 3 e favorecer o refluxo em direção às ruas. Por isso, a cidade instalou três válvulas que se fecham automaticamente quando a água força o caminho contrário pela rede urbana.

Por que a maré consegue empurrar água de volta?

O sistema de drenagem precisa conduzir a água das ruas até os canais, porém a maré elevada pode inverter parte dessa pressão. Em pontos próximos ao Canal 3, a Prefeitura registrou alagamentos associados a ressacas fortes e chuvas intensas. Por isso, a cidade buscou uma barreira física na própria rede para conter parte desse caminho inverso.

Em 2023, a Prefeitura de Santos anunciou três válvulas antirretorno, após estudos especializados sobre pontos com alagamentos. Elas seriam os primeiros dispositivos desse tipo acoplados à drenagem municipal e atenderiam junções próximas ao Canal 3. A proposta não promete eliminar alagamentos, mas dificultar a entrada da água do mar pelas redes próximas durante episódios de maré elevada.

🏛️ 1907: Começa a primeira obra dos canais, parte do plano que conduzia águas pluviais e ajudava a drenar terrenos úmidos.

🌊 1923: Os canais 3 e 4 entram na rede que acompanha a expansão urbana em direção à orla.

🚀 2025: Três válvulas antirretorno são instaladas nas proximidades do Canal 3, ligadas às redes de três ruas.

Como as válvulas fecham sozinhas no Canal 3?

A pressão da água fecha a membrana e dificulta o refluxo - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O mecanismo depende da própria pressão da água, sem exigir comando manual a cada mudança da maré, porque o fechamento acontece no próprio dispositivo. Cada válvula usa aço inox e uma membrana resistente de poliuretano dentro de uma caixa de concreto. Quando a água do canal pressiona o dispositivo, essa membrana se fecha e dificulta o retorno pelas bocas de lobo em direção às ruas.

A explicação aparece em publicação de junho de 2025 da Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos, durante a execução da obra junto ao Canal 3. A caixa possui duas câmaras, uma recebe a válvula com lado afunilado voltado ao canal, enquanto a outra retém folhas e detritos. Uma grelha auxilia essa retenção, enquanto tampas de concreto vedam as câmaras e favorecem limpeza, inspeção e manutenção do conjunto ao longo do uso.

Três pontos atacam o refluxo perto das ruas

As três válvulas foram instaladas onde redes locais encontram o sistema ligado ao Canal 3, na Avenida Washington Luís, próximo à orla. Os pontos atendem as áreas das ruas Jorge Tibiriçá, Alamir Martins e Lincoln Feliciano. A escolha seguiu estudos de empresas especializadas contratadas para avaliar locais com ocorrência de alagamentos durante ressacas e chuvas de maior intensidade.

Na Rua Jorge Tibiriçá, a obra incluiu uma caixa de concreto de 3,60 m por 2,20 m, junto ao canal. Um tubo de três metros e 800 milímetros interligou a caixa ao canal na primeira frente, aproveitando condições meteorológicas favoráveis no trecho da orla. Em 2025, a Prefeitura confirmou as três válvulas instaladas, com tubulação, caixa e mecanismo integrados ao sistema nas proximidades do canal, na etapa final.

Uma drenagem centenária continua sendo adaptada

A curiosidade ganha outra dimensão porque o Canal 3 pertence a uma rede concebida para enfrentar problemas sanitários e inundações no início do século passado. Saturnino de Brito estruturou a separação entre esgoto e águas pluviais e, em 1905, passou a comandar a comissão sanitária. O primeiro canal começou em 1907; os canais 3 e 4 vieram em 1923, dentro de um projeto com nove canais superficiais.

Mais de um século depois, a cidade continua modificando essa infraestrutura diante das pressões costeiras. A história oficial dos canais de Santos relaciona essas estruturas à drenagem e à redução de alagamentos. Em janeiro de 2026, uma ressaca levou a Prefeitura a prever a retirada de 900 toneladas de areia dos canais 1, 2 e 3.

Elemento

Função

Válvula

A membrana de poliuretano fecha sob pressão da água do canal e dificulta o refluxo pelas bocas de lobo.

Caixa

Abriga o mecanismo e mantém uma segunda câmara com grelha para folhas e detritos, facilitando limpeza e inspeção.

Santos aprende a drenar com a maré

Santos transformou um efeito recorrente da maré em uma questão incorporada ao desenho da drenagem, com três pontos novos de contenção. As válvulas não anulam ressacas, chuvas fortes ou outros fatores de alagamento, mas criam uma barreira contra o refluxo. A solução mostra como uma infraestrutura centenária pode receber adaptações específicas sem abandonar sua função de escoamento diante das mudanças impostas pela dinâmica costeira. Se você passar pelo Canal 3, observe como parte dessa resposta urbana permanece escondida sob a rotina da avenida e das bocas de lobo.

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